sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A busca pelo alternativo - Postado por Jairo Len


Todos que me conhecem como pediatra sabem que sou alopata (convicto), mas que existem alguns setores da fitoterapia (e, bem mais raramente, da homeopatia "pronta") que podem aparecer no meu receituário. Camomila, Crataegus, Salix Alba, Pulsatilla...
Um estudo da Universidade de Newcastle, Inglaterra, comprovou em ratos que a erva Hyptis crenata, conhecida como hortelã-brava e salva-de-marajó, genuinamente brasileira, tem propriedades analgésicas semelhantes a alguns remédios vendidos nas farmácias. O chá, aonde se ferve por 30 minutos a erva seca, não tem gosto agradável (esta hortelã tem gosto de sálvia, e não da hortelã tradicional que usamos no dia-a-dia).
É claro que esta erva, se comprovadamente efetiva, vai para uma cápsula sem gosto. E, melhor ainda, se descobrirem que não apresenta efeitos colaterais - o que é difícil, porque as ervas, concentradas, geralmente tem bastante reações secundárias.

Mas o post de hoje não é para mostrar este estudo, interessante, porém sem relevância, ainda.
O que me intriga é a busca, por algumas pessoas, do alternativo (em medicina, ok?). Vejo isso no meu dia-a-dia na Clínica, em pessoas que me procuram e sabem qual é minha filosofia de trabalho.
Temos antialérgicos alopáticos extremamente seguros e testados, com efeitos colaterais raríssimos...mas tem mães que ficam "judiando" dos seus filhos portadores de otite secretora, com remédios homeopáticos ou antroposóficos (do tipo sabe-deus-o-que-tem-dentro) por meses a fio, insistindo, sem dó... Qual é o problema em acreditar no que é cientificamente comprovado?
Idem em relação aos antibióticos. Não fossem eles, tenho certeza que muitos de nós e nossos filhos não estaríamos por aqui. Era assim no inicio do século passado, era aonde já reinava, absoluta, a homeopatia. Mas no dia-a-dia me deparo com mães que, ao ser prescrito o antibiótico (seguro, testado,...) para uma infecção urinária febril comprovada por exames laboratoriais, parece que vão dar veneno para o filho. "Não tem outro jeito? Não gosto de antibiótico! Não podemos esperar um pouco? Estou tão dividida...! Meu marido não gosta de antibiótico...Não faz mal?"
Não...
O que faz mal é infecção urinária, otite, pneumonia...
Quando se trata de não querer aplicar vacinas nos filhos, aí então a coisa complica. Não atendo. Insisto, explico, mostro artigos científicos ou não...mas se os pais não querem vacinas, procurem um pediatra (insano) que corrobore com esta filosofia (insana).
Mas o que faz um pai ou um mãe ter algo contra vacinas? Intrigante. Aonde eles se informam? O que leem? Não acreditam nos avós, tios, amigos médicos?
Não é raro topar com situações assim na Clínica.

As "alternativas alimentares" (vegetarianismo, aversão à carne vermelha, só querer leite de soja...) eu deixo para novo post.

Como falei, sou alopata mas não desacredito em tudo. Tenho alguns relatos de pais que viram melhora de problemas crônicos dos filhos com o uso de remédios alternativos. E tenho centenas de casos de asmas graves, alergias importantes e demais doenças crônicas que controlamos com medicamentos alopáticos, seguros. Que devem ser prescritos sempre com critério.
Costumo repetir para as mães "alternativas": espere seu filho ter idade e discernimento para escolher o caminho que vai trilhar. Antes disso, vamos nos basear no que comprovadamente funciona e é seguro (através de ciência, estudo, seriedade).

"Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil - e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos." (Albert Einstein)

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