quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Mais sobre Vacinas (Postos ou Clínicas?) - Postado por Jairo Len

Já postei, tempos atrás, um texto sobre a diferença entre vacinar no posto de sáude ou em clínicas particulares. É um assunto do dia a dia nas consultas pediátricas. 
A vacinação dos postos de saúde evoluiu muito nos últimos dois ou três anos, mas ainda não pode ser comparada à que se realiza nas clínicas particulares no Brasil (ou nos "postos de saúde" norte-americanos ou europeus).

Esta semana li uma reportagem sobre vacinas, efeitos colaterais, etc... no blog Maternar (maternar.blogfolha.uol.com.br), que inicia muito bem, falando sobre as reações que as vacinas podem dar, mas termina de forma ruim, nivelando as vacinas do posto às particulares. Entendo que muitos blogs imaginam ter um viés social importante e creem "falar" para todas as classes sociais, mas sabemos que a penetração dos blogs é bem específica, não escrevemos blogs para confortar ninguém, e sim para tentar elucidar dúvidas diárias com isenção (e uma pitada de ironia...). 
No Maternar, leio: "Como as diferenças de calendário diminuíram bastante nos últimos anos, os pais podem dar nas clínicas somente as vacinas que não estão disponíveis nos postos".
Frase dúbia.
A vacinação realizada nos postos é completa, faltando hoje em dia só a vacina contra hepatite A. As demais, todas são realizadas.
A diferença está no tipo e abrangência de vacina usada.
Exemplo:
Os postos vacinam contra pneumococos através da Pneumo 10-valente, produzida pela GSK, na Bélgica. As clínicas particulares usam a Pneumo 13-valente (da Pfizer/Wieth, EUA). São 3 sorotipos de pneumococos a mais. Acredita-se que com o uso da Pneumo 10-valente (POSTOS), economiza-se a vida de 5 mil crianças ao ano no Brasil. E que se o Brasil usasse para todos a Pneumo 13-valente, 7 mil crianças deixariam de morrer no Brasil por causa desta doença. Ou seja: duas mil crianças a menos morreriam.

A Pneumo 10 está disponível nos postos. É igual à pneumo 13? Não.

Outra vacina: contra Rotavírus. O posto usa a vacina monovalente (Belga, da GSK), só um sorotipo de rotavírus. Cobre 70% destas viroses intestinais. As clínicas usam a vacina Pentavalente (da MSD, EUA). Cobertura contra rotavírus: 99%. Não são iguais.

Em relação às vacinas tríplice e poliomielite, as clínicas usam a Hexavalente, uma vacina acelular, em picada única, com baixos índices de reações. Os postos aplicam em seringas separadas (Penta + Polio, 2 picadas), e a vacina de "célula-inteira" - muito mais reações. Portanto, não são iguais.

Enfim...cabe aos pais esta decisão, principalmente aqueles que tem condições de pagar pelas caras vacinas das clínicas particulares - que sofrem altas cargas de impostos de importação e intermediários que quintuplicam seu preço de origem. 
Mas cabe a nós, profissionais, explicar de forma sincera as diferenças entre os tipos de vacinas - sem ter "pena" de ninguém, contando que também no quesito "vacinação" o governo não oferece o que há de melhor para a sua população.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Genéricos, Similares e Originais - Postado por Jairo Len

"Você confia nos medicamentos genéricos?"
Não só para mim, mas acredito que todos os médicos respondem a essa pergunta com muita frequência...
Para não parecer muito radical, eu coloco um questionamento aos que me perguntam sobre genéricos:
- Se o governo criasse a linguiça genérica, você compraria, independente do fabricante? Compraria a linguiça do "Zé da Esquina", que você nunca ouviu dizer? Ou uma linguiça feita na Índia?
A resposta, sempre depois de alguns segundos de meditação, é..."não"
- Mas o nosso governo garante que a linguiça é boa!!
"Não...acho que não, né?"

Então - respondo - com os medicamentos é exatamente igual - temos que confiar nos laboratórios e sua idoneidade, sua seriedade.
Não se pode confiar na vigilância do governo, que nós médicos sabemos que não é realizada abrangente, séria, responsável e isenta de qualquer interesse. Basta ler uma revista semanal (Veja, IstoÉ, Época) para ver como funciona o lobby da saúde - um dos mais famigerados, e todos os seus braços malévolos. Principalmente quando se trata de grandes, enormes volumes de dinheiro. 

Li há pouco, incrédulo, que a ANVISA quer unificar genéricos e similares. Similares são os medicamentos produzidos por qualquer laboratório quando o original "perde" a patente. O laboratório que quiser compra o sal (produto in natura, o medicamento cru) em qualquer canto do planeta (China, Indonésia, Índia) e produz seu remédio. Dá um nome criativo e põe à venda.
O que isso significa?
Atualmente, quando o médico prescreve, por exemplo, amoxicilina, a farmácia pode vender o original (Amoxil, da GSK) ou o genérico. Só.
Com a nova regulamentação, a farmácia pode empurrar qualquer tipo de amoxicilina.
Similares, inclusive. Fabricados por qualquer um...

Acho que os similares e os genéricos, de modo geral, se equivalem. É o roto e o esfarrapado.
Volto à linguiça. Não dá pra confiar na vigilância do governo...
Compraremos a linguiça de quem confiamos... Você só compra da Sadia, Perdigão, Aurora... Mas e o Zé da Esquina Calabresa, não confia?

Eu particularmente (para uso próprio) não tenho boas experiências com genéricos, infelizmente. Não só de um remédio...
Atualmente não compro. 
Similares? Alguns. Aqueles em que confio no laboratório fabricante e que eu sinto que fazem efeito, Isso é muito simples para quem toma o Nexium, por exemplo, um remédio para regular a acidez gástrica. O genérico (esomeprazol, só tem um fabricante deste genérico...) não me fez efeito. Não funcionou.

Para meus pacientes, recomendo o uso do original. Além do gosto invariavelmente melhor - importantíssimo em pediatria - não posso contar com o viés do remédio não funcionar por não ser de boa qualidade. Se não está funcionando, mudamos o rumo do tratamento. 

Medicina é algo muito sério. Podemos perceber isso cada vez mais, dia a dia se fala nesse assunto.
Se os interesses econômicos ou a bandalheira falarem mais alto, estamos em maus lençóis...

Para ler o texto sobre genéricos e similares, clique aqui (Folha.com)

Parece que a desconfiança não é só por aqui...