terça-feira, 30 de outubro de 2012

Antibióticos - Postado por Jairo Len

Dentro da medicina terapêutica, sem dúvida nenhuma o maior injustiçado é o antibiótico.
Se houve algum medicamento que aumentou demais a expectativa de vida da população nos últimos 100 anos foi ele.
Menos de um século atrás, antes da descoberta da penicilina, a maior causa de morte em todas as idades era a infecciosa. Pneumonias, meningites, infecções de pele, doenças venéreas, tifo, tuberculose, e aí vai.
É claro que esta mudança de estatística não se deve exclusivamente aos antibióticos. Saneamento básico, higiene pessoal e alimentar são fundamentais também.

Quando prescrevemos antibióticos (fundamental para uma otite, por exemplo), muitas vezes dá a impressão de estar prescrevendo veneno.
"Antibióóóótico??? Mas não estraga os dentes??" 
Pergunta clássica, que seria válida nos anos 1950 e 60, quando as tetraciclinas foram largamente usadas, sem qualquer teste prévio em animais. Escureciam, sim, os dentes. Foram banidas em crianças há 50 anos...
Lembro sempre aos pais que na mesma época obscura da medicina se usou, em gestantes, o anti-ulceroso talidomida. As mães que usaram talidomida tiveram filhos com focomelia, uma anomalia congênita aonde pernas e braços não se desenvolvem.

A medicina evoluiu, e hoje os antibióticos usados no dia-a-dia são extremamente seguros no quesito efeitos colaterais importantes. É claro que, como qualquer medicamento, podem causar reações alérgicas ou gastro-intestinais, facilmente reversíveis.
Alguns antibióticos injetáveis, para doenças extremamente graves, apesar de serem a salvação, merecem monitorização de função renal e hepática. Seu uso em crianças é raríssimo, e sempre em casos hospitalizados.

A despeito de seu uso exagerado (concordo...), os antibióticos são extremamente seguros.
Outra coisa que lembro aos pais é a questão de "intoxicação". Inúmeros remédios, se ingeridos por acidente ou intencionalmente, podem intoxicar: antitérmicos, antitussígenos, anti-inflamatórios, anti-alérgicos...
Antibiótico não... Se uma criança tomar um vidro todo de antibiótico, vai ter desarranjo intestinal, mas não há qualquer problema maior.

Além de tratar as infecções primárias, os antibióticos são fundamentais como coadjuvantes de outros tratamentos, como as quimioterapias das leucemias e as profilaxias de cirurgias cardíacas.
Para os bebês prematuros, de 900 g, os antibióticos são absolutamente decisivos, sem os quais as chances de sobreviver seriam mínimas... Sem efeitos colaterais.

Existe, sim, um exagero nas prescrições dos antibióticos. Não há dúvida.
Seu uso deve ser criterioso, como qualquer outro medicamento. 
Vejo que em adultos, via de regra, são usados "de cara" antibióticos muito potentes, como as quinolonas (ciprofloxacina, levofloxacina). Isso vai levar cada vez mais à seleção natural e bactérias resistentes.
Em pediatria ainda usamos coisas mais simples, como a amoxacilina, azitromicina e celafosporina, como primeira opção.


O diálogo com o médico é importante, saber a real necessidade de tratar ou não a infecção do seu filho com antibiótico e outros medicamentos.

Mas mães e pais devem temer as bactérias, não o tratamento delas.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Gangue Pink - Postado por Jairo Len

O assunto pode não ser propriamente pediátrico, mas acho que tem a ver com direito de crianças e de um exemplo muito interessante.

Mulheres que transformam
Sem ficar pelada na Av. Paulista, sem sair com barrigão pintado com "quero nascer em casa" na orla carioca, sem fazer "mamaços" no meio da rua, beijaços em shoppings, "marcha das vadias" ou ficar atazanando a vida de outras mulheres iguais a ela, Sampat Pal Devi, 54, fundadora da Gulabi Gang (gangue cor-de-rosa) é lider de um movimento feminista (?) fora dos padrões.

Folha de São Paulo - "Bem antes de as militantes do Femen causarem furor com seus métodos pouco convencionais de protesto, Devi surpreendeu a população do vilarejo onde mora, no Estado de Uttar Pradesh, norte da Índia, ao enfrentar com as próprias mãos e um bastão um homem que espancava sua mulher - prática habitual na região, uma das mais pobres do país. 
Devi pediu ao sujeito que parasse de maltratar a esposa, mas não foi atendida. Reuniu então um pequeno grupo de mulheres. Juntas, elas deram uma surra no agressor".

Ela estará no Brasil para o seminário "Mulheres Reais Que Transformam".

Devi casou-se (forçada) aos 12 anos, teve o primeiro filho aos 15 e aos 20 anos já tinha cinco filhos.
O casamento forçado de meninas também é uma das batalhas do grupo. Querem impedir esta prática.

É claro que desde a primeira "surra" as coisas mudaram. Hoje são mais de 20 mil ativistas, website moderno (gulabigang.in), coisa globalizada.

A roupa delas? Um sari rosa-choque, e o simbólico lathi nas mãos, o bastão de bambu. Que, se necessário, será usado.
"Há dois tipos de injustiça: a do governo e a da sociedade. Se for do governo, a gangue vai mostrar seus bastões para quem for a maior autoridade, até conseguir uma resposta", diz Devi.

Lutam por gente indefesa, por causas que não dão tanto ibope, em países aonde a repressão às mulheres é habitual. Aonde não se sai de topless nem se aguarda o santo das causas impossíveis resolver o problema.
"Quando você traz uma mulher que radicaliza a maneira de lutar por seus direitos como a Sampat Devi, você chacoalha o público. As pessoas precisam sair de sua zona de conforto e começar a agir", diz a jornalista Ana Paula Padrão, organizadora do evento que acontecerá no Rio de Janeiro.

Gulabis em ação. Não. Nada a ver com a "marcha das vadias", promovida pelo grupo Femen

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lugar de criança doente é... - Postado por Jairo Len

Sempre comento aqui no blog que as crianças com doenças infecciosas não devem ir à escola, berçários e demais locais aonde vão conviver com outras crianças.
Na prática, por exemplo: quem está com febre de 38º C e tosse à noite, não deve ir à escola no outro dia. Febre e escola não rimam. Este relapso de muitos pais é o fator que faz com que os consultórios pediátricos estejam cada vez mais cheios.

Olhando meus arquivos, achei um texto excelente, escrito pela psicóloga Rosely Sayão. Copio ele aqui. É um ponto de vista excelente... Já que muitas pessoas não estão "nem aí" para as demais crianças que frequentam a escola de seus filhos, que pelo menos pensem quais são as necessidades do seu próprio filho.

"Criança doente quer"... - Rosely Sayão - Caderno Folha Equilíbrio, 01.03.2011

"Pais de crianças sempre estão às voltas com doenças de seus filhos. Ora é uma gripe, uma infecção de garganta, febre, tosse, dificuldades respiratórias, dor de barriga, diarréia, etc. Ah! E sempre é preciso contar também com pequenos ferimentos, fruto de quedas, tropeços e até de pequenas brigas.
Em toda casa em que há crianças, há sempre uma pequena farmácia: xaropes, antitérmicos, termômetro, inalador, umidificador de ar, gaze, esparadrapo, entre outros medicamentos e apetrechos, têm presença quase obrigatórias nessas casas.
É comum criança pequena perder a fome quando adoece. É que seu organismo precisa de energia para lutar contra a doença e não pode desperdiçá-la com o trabalho digestivo, não é verdade? Mas uma gostosura feita com pouco açúcar e muito afeto sempre dá uma força extra para a criança.
A criança, quando está doente, precisa de muita, muita atenção e de carinho de seus pais ou parentes queridos. É que, com a doença, por mais simples que ela seja, chegam sensações não muito agradáveis de se conviver. A insegurança, o medo, a sensação de desamparo e a inquietação são algumas. Se o adulto sente tudo isso nessa hora, por que haveria de ser diferente com os mais novos?
Então, além da visita ao médico de confiança e dos cuidados e remédios que ele prescreve, tudo o que o filho precisa nessa hora é da serenidade dos pais, de sua firmeza ao dar os remédios receitados e de muita, muita paciência deles. Colo: é disso que a criança precisa e quer.
Colo conforta, colo alegra, colo energiza a criança debilitada. E quando digo colo não me refiro apenas ao ato de pegar a criança.
Ler uma história para ela, relembrar um episódio engraçado, passar a mão em sua cabeça e até encorajá-la nas piores horas são excelentes remédios - ou melhor, colos - que os pais podem dar a seus filhos como uma ajuda importante em busca da recuperação da criança.
A base do excelente trabalho do grupo "Doutores da Alegria" é exatamente essa.
Mas, e quando os pais trabalham e não podem se ausentar de seus compromissos profissionais? Bem, se a realidade é essa, sempre é possível encontrar maneiras de se fazer presente na vida do filho mesmo na ausência.
Pequenos bilhetes carinhosos deixados com ele, telefonemas rápidos só para desejar melhoras, as refeições preferidas dele deixadas prontas são alguns exemplos. É bom lembrar que a casa, para a criança, representa seus pais, mesmo quando eles lá não estão. Por isso, só o fato de estar em casa já é um conforto.
Hoje, não é em casa que muitas crianças doentes ficam. Elas são levadas para a escola por seus pais. E pasme, caro leitor: algumas mães levam junto com o filho doente a receita médica e os remédios para que os professores deem para a criança. E mais: algumas mães até dizem que precisam que a escola faça isso porque elas próprias não conseguem. Lugar de criança doente não é na escola! Para a segurança física e emocional dela, convém lembrar.
Quem tem filhos deve saber que uma hora ou outra uma doença sem gravidade vai aparecer. E que isso significa noites mal dormidas, cansaço a mais, dedicação e cuidados especiais e mudança na rotina familiar. Não há como ser diferente.
Essas doenças leves logo passam. Mas a sensação de abandono que a criança doente deixada na escola por seus pais sente pode ficar."




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Chocolate e Nobel - Postado por Jairo Len

Quanto mais um país come chocolate, mais prêmios Nobel ele tem.
Parece piada, mas saiu no "New England Journal of Medicine", uma das mais importantes revistas científicas do mundo.
No estudo - uma brincadeira com toques de verdade - até se atribui aos flavonóides do chocolate uma melhora de capacidade mental e diminuição dos níveis de demência.
Feito na Universidade de Columbia (EUA), este estudo já é candidato ao prêmio IgNobel.

Obviamente o estudo não tem qualquer embasamento científico e apresenta grandes falhas de metodologia - a idéia é que tenha sido publicado pelo "New England" para fazer uma sátira aos inúmeros estudos relacionando "algo com algo", principalmente o tipo de comida que se ingere e algum benefício a longo prazo que isso possa trazer. Estudos sem comprovação científica nenhuma, que hoje em dia são publicados até diretamente na internet, sem passar por nenhum board de experts.

De qualquer forma, é interessante...

Que a nutrição de uma população desde criança (e consumo de chocolate) tem a ver com o grau de desenvolvimento de um país, isso não pode ser questionado:


Chocolate e boa nutrição infantil, educação de boa qualidade, preocupação com as crianças.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Bora aí - o que fazer em SP - Postado por Jairo Len

O que fazer com os filhos neste fim de semana?
Pergunta básica dos paulistanos que não vão viajar.
São Paulo tem centenas de opções para todos os gostos e tribos familiares.
A busca destas opções, mesmo pela internet, é complicada, cada "guia" falando de algumas atividades, esquecendo-se das outras.

Na busca de fazer algo mais prático, simples e completo, uma mãe de paciente(s) lá da Clínica criou o Bora.aí.
Um portal com excelente visual e fácil de navegar, reunindo todas as opções disponíveis.
Parques, eventos, teatros, shows e idéias de programas.

Vale a pena conferir. O feriadão está aí.

Bora.aí: http://bora.ai/.

Bom proveito!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Bicicleta e Crianças - Postado por Jairo Len

Cada vez é mais frequente o uso da bicicleta na cidade de São Paulo.
Mais ainda após a criação da ciclofaixa - que apesar de eu não ser um fã - realmente, até agora, se mostrou segura. Misturar carros e bicicletas ou pedestres, separando-os por cones de plástico, é confiar demais na civilidade dos motoristas.
Perto de onde moro, no Alto de Pinheiros, não se respeita o limite de 40 km/hora para carros, ao lado da ciclofaixa. Mais: ainda buzinam e você tem que ir para a faixa da direita...

De qualquer forma, é importante pensar em segurança das crianças quando estão na bicicleta dos pais e na própria bicicleta...
Juntando informações da Sociedade Brasileira de Pediatria e Academia Americana de Pediatria (que parece mais um disclaimer), listo aqui as principais preocupações por quem está por dentro da estatística:

- Crianças devem sempre ser transportadas em assentos especiais, de boas marcas e homologados. Tanto faz se for na frente ou atrás da bicicleta. Nunca se deve usar cangurus ou quaisquer forma de transporte que não seja a "cadeirinha".
- O cinto de segurança deve estar muito bem afixado.
- Quando usar assentos traseiros, estes devem ter proteção e apoio para os braços e pernas da criança, bem como um espaldar mais alto, com apoio de cabeça, caso a criança adormeça.
- Crianças com menos de 1 ano não devem ser transportadas de bicicleta. Só adultos devem carregar crianças em bicicleta.
- Entre 1 e 4 anos a crianças podem andar na bicicleta dos adultos, devendo sempre usar capacete.
- O capacete deve ser de boa marca e do tamanho certo para a cabeça. Deve ser bem fixado, sem frouxidão.

- Quando a criança está na própria bicicleta, cuidado extra: cotoveleiras ajudam a minimizar os efeitos das pequenas quedas, sempre frequentes. Procure também usar roupas de cores fosforecentes e chamativas para as crianças.
- Bicicletas muito grandes ou pequenas para a idade são perigosas para crianças. Os pés da criança devem poder tocar no chão quando a criança está sentada no banco da bicicleta.
- Procure sempre andar de bicicleta em parques e ciclovias exclusivas, com separação física entre bicicletas e veículos pesados. Evite andar na mesma via que os carros e motos, principalmente ao transportar crianças.
- Não use fones de ouvido e música alta.
- No caso de andar em ruas e avenidas (perigo...!) sempre ande no mesmo sentido do tráfego, nunca na contra-mão.
- Grande parte dos acidentes de bicicleta se dá pelo fato do ciclista não respeitar as leis de trânsito (farol vermelho, mudança brusca de faixa sem sinalização).

Você vê que são informações bastante óbvias, mas são veiculadas por organizações e sociedades pediátricas bastante sérias - que percebem, através das estatísticas, que estas informações tão banais são muito importantes para a segurança de todos.

O capacete é a peça mais importante da segurança na bicicleta.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Refrigerantes - Postado por Jairo Len

Há alguns anos os refrigerantes tem sido bombardeados como ícones da má alimentação e obesidade. Concordo plenamente.
Meus pacientes sabem que sou contra a ortorexia (nas crianças), mas se tem uma coisa que recomendo os pais nunca oferecerem são os refrigerantes.
Sucos prontos de caixinha idem, ainda que menos danosos, pelas quantidades habitualmente ingeridas.
Nos EUA a guerra é explícita, até com toques de ironia, como proibir a venda dos mega-copos, aqueles de 750 ml. Ainda que o copo de 400 ml pode ser vendido, com "free refill" - ou seja, você pode voltar à máquina e encher o copo quantas vezes quiser sem pagar...

Folha.com: A ligação entre o consumo da bebida e dos sucos adoçados e a obesidade é tema de três estudos e de um editorial publicados ontem no periódico "New England Journal of Medicine".

Os refrigerantes e sucos prontos (não diet/light) são gigantesca fonte de açúcar, que ao serem ingeridos aumentam muito a taxa de glicose e, por isso, a taxa de insulina no sangue. A insulina é um hormônio que causa fome, é anabolizante - e em excesso faz engordar.

O estudo não avaliou as formas diet/light de sucos e refrigerantes, mas em outros posts já falei sobre o malefício que é o excesso de uso destas bebidas.

É evidente que estes problemas trazidos por estas bebidas não são para todos, depende da genética, do restante da alimentação e das quantidades diárias.
Mas não custa nada tentar educar uma boa alimentação desde cedo.