sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lactobacilos e Probióticos - Postado por Jairo Len

A Organização Mundial de Saúde define probióticos como “organismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do hospedeiro” (FAO/WHO, 2001). Lactobacilos, portanto, são probióticos.
Mas será que eles fazem efeito?
Sem sombra de dúvidas, sim. Já é extensamente comprovado o benefício destas bactérias gram-positivas quando administradas da forma e quantidade corretas. Melhoram diarréias infecciosas e pós-antibiótco, leucorréias, ajudam no funcionamento intestinal, tem efeito protetor intestinal contra infecções e até proteção geral do sistema imune.
Yakult, Activia, Actimel, Sofyl, Chamyto, Nesvita - funcionam mesmo?
Uma reportagem da Folha.com mostra que as agências reguladoras, pelo mundo, questionam fortemente o apelo comercial dos produtos lácteos prometendo mundos e fundos através dos lactobacilos. A discussão foi levantada pela EFSA (autoridade europeia para segurança alimentar). Depois de analisar mais de 800 pedidos da indústria, a agência declarou que não há comprovação científica suficiente para recomendar os produtos em larga escala.
Ou seja, não fazem mal, mas os lactobacilos que muitos deles contém não passam do estômago.
No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) reconhece a eficácia dos alimentos com probióticos. Entretanto, não permite que a propaganda alardeie benefícios além de "contribuir para o equilíbrio da flora intestinal". No ano passado, a ANVISA proibiu a propaganda do Actimel, que atribuía ao produto "o poder de aumentar as defesas naturais do organismo". Como a forma de fazer publicidade é complicada de se regulamentar, os produtos acabam passando a mensagem que querem...

Utilizo, no dia-a-dia da pediatria, diversas formas de probióticos (como o Yakult LB, um produto liofilizado vendido em farmácias, e o Culturelle, produto importado), e sem dúvida tenho certeza que eles funcionam. Há estudos científicos comprovando.
Nada contra gastar dinheiros com os leites fermentados, mas temos que saber que, como diz a filosofia de botequim, "uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa".

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre remédios e infecções - Postado por Jairo Len

Algumas notícias sobre medicamentos me chamaram atenção nesta semana.
A primeira delas, que acho importante que todos saibam:
"Entidade britânica detecta sibutramina em fitoterápicos não autorizados" - na Inglaterra, país sério de primeiro mundo, sibutramina foi encontrada em medicamentos fitoterápicos comercializados como auxiliares de perda de peso. Destes vendidos na internet, sem receita, que cada um compra como quer (pelo menos aqui no Brasil). Análise do chá Payouji e das cápsulas Pai You Guo Slim realizada pela fiscalização de medicamentos do Reino Unido revelou que ambos continham a substância. A informação foi publicada no site da "BBC News".
Não estou dizendo que no Brasil todas as cápsulas milagrosas emagrecedoras contenham substâncias fortes e controladas (sibutramina, fenilefrina, fenproporex, anfetamina, diuréticos, hormônios...), mas devemos ter muito cuidado. Já tive experiências com "medicamentos fitoterápicos" emagrecedores que causaram reações importantes em pacientes (que compraram sozinhos, pela internet). Muito cuidado.
Quer comprar Caralluma Fimbriata ou Faseolamina? Peça para o seu médico, se ele conhecer estes fitoterápicos, formular em uma ótima e confiável farmácia de manipulação.
Outra notícia que li é que a ANVISA regulamentou a venda de antibióticos com retenção da receita médica. Daqui a 60 dias está valendo. Fantástico... Sempre fui a favor disso. Mas acho que o Brasil ainda não está preparado para que isso seja posto em prática. Aqui não temos medicamentos fracionados, que são vendidos na quantidade exata. Vendem-se caixas inteiras para 7 dias. Se precisar complementar o tratamento até 10 dias, ou compre antes (mais uma caixa para 7 dias), o que eleva os custos, ou arrume outra receita. Fácil, para quem tem acesso a médicos particulares ou dinheiro.
A população, em geral, vai comprar uma caixa só. A outra (autorizada pela receita) fica para o balconista comercializar como queira. Não falo de Drogasil, Raia ou Onofre. Isso é minoria no Brasil.
A ANVISA também exige que, a partir de agora, o uso do álcool gel seja obrigatório nos hospitais e nas clínicas públicas e particulares. Macacos me mordam... Lá na Clínica Len de Pediatria temos dispensers de álcool gel em cada sala de consulta e nas salas de espera. Bem antes da gripe suína, bem antes da superbactéria KPC. É uma medida mínima de higiene. Mas não é este o ponto.
Ao mesmo tempo que a ANVISA exige isso e dezenas de outras coisas de uma Clínica (é inimaginável o número de itens necessários ao alvará de funcionamento), ela "permite"  que nos hospitais públicos sejam depositados pacientes no chão e no corredor, sem banho diário, sem materiais descartáveis, sem qualquer mínima condição de dignidade, em cenas que parecem o atendimento pós-terremoto do Haiti.
Mas não esqueça de limpar as mãos com álcool gel.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ftalatos...sabe do que se trata? - Postado por Jairo Len

De vez em quando as mães leem no jornal alguma reportagem sobre os possíveis malefícios que o ftalato pode causar no nosso organismo. O assunto é extremamente controverso e complicado, mas vou tentar simplificar.
O ftalato (que existe há 70 anos) é um componente de praticamente todos os plásticos moldados que usamos, como frascos de shampoo, brinquedos infantis, recipientes culinários, filmes de PVC ("Majipack" e similares), cápsulas para comprimidos, tampa de caneta...e assim por diante.
Estudos tem mostrado, em modelos animais, que o contato (ingestão ou inalação) de ftalatos pode ter efeitos deletérios ao organismo, como distúrbios na diferenciação sexual. Pelo menos é o que acontece em ratos/cobaias expostos a altas doses de ftalato. Nenhum estudo ainda comprovou este efeito em seres humanos.
Crianças e adultos, quando pesquisados, frequentemente tem níveis elevados de ftalatos na urina. Por exemplo, "mastigar" um brinquedo ou uma tampa de caneta aumenta a ingestão de ftalatos. Aquecer comidas cobertas com filme de PVC, no microondas, libera ftalatos - que serão inalados e ingeridos. Assim por diante.
Só por exemplo e cultura geral, os plásticos são divididos em 7 tipos, cujos símbolos podem ser identificados na maioria das embalagens:
Tipo 1 - PET (as garrafas de refrigerante) - não contém ftalato
Tipo 2 - HPET (garrafas plásticas de suco, leite, óleo) - não contém ftalato

Tipo 3 - PVC (filmes plásticos, embalagens de produtos de higiene, algumas garrafas plásticas, etc) - estas contém ftalatos e bisphenol-A e não devem der ingeridas ou mastigadas pelas crianças e adultos.



Tipo 4 - Polietileno de baixa densidade (sacolas plásticas) - sem ftalato
Tipo 5 - Polipropileno (sacolas plásticas, carpetes, material hospitalar) - OK, sem problemas
Tipo 6 - Poliestireno (isopor) - seguro...
Tipo 7 - "Todos os demais" - este pode conter de tudo, incluindo ftalatos e bisfenol-A

Minha opinião
Sem neurose. Ftalatos existem há 70 anos e usamos no dia a dia, não tem como fugir. Comissões científicas e grupos de estudo, sérios, nos Estados Unidos e Europa, vem estudando os efeitos do ftalato (e ou outros: bisfenol-A, PET, PVC, poliestireno, polipropileno) e ainda não se chegou a uma conclusão em proibi-lo.
Claro que os bons produtos, confiáveis, contém níveis aceitáveis e dentro da legislação para estas substâncias químicas - e cuidado ao comprar produtos de certificação e origem duvidosa, principalmente os que vão à boca das crianças... Recomendo sempre que os alimentos não sejam cobertos com papel filme, nem em recipientes de plástico, para serem aquecidos no microondas.
O resto, acho um exagero.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Termômetro de mercúrio - Postado por Jairo Len

Já escrevi sobre termômetros em uma outra postagem ("Termômetros"), falando sobre os diferentes tipos e minhas preferências. Comentei que o mais exato de todos é o de mercúrio, não obstante os eternos quatro minutos que tem que ficar na axila... Além de exato, ele é disponível. Está sempre lá, meio perdido no armário, mas pronto para o uso. Não precisa pilha ou bateria, não enferruja se molhar, e 99% das pessoas sabem usar.
E não é que a Anvisa pretende proibir sua venda no país? Pressionada por ONGs do meio ambiente, que afirmam que o mercúrio metálico é um atentado à natureza, a Anvisa recebeu e avalia uma petição destas entidades para banir o termômetro de mercúrio.
Não afirmo que ele seja seguro - porque aquelas bolinhas de mercúrio que todos nós brincamos na infância são realmente tóxicas se ingeridas. Assim como é um risco ingerir água sanitária, pilhas e baterias de relógio (extremamente tóxico), remédios de adultos, etc...
O que você faz se caquinhos de vidro de um copo quebrado estão no chão? Pega um por um, aspira, passa pano...mas não deixa seus filhos brincarem com os pedacinhos, não é? Basta fazer o mesmo se o termômetro se partir...
A venda de termômetros de mercúrio é liberada nos estados Unidos e Europa. Basta que a qualidade do produto seja boa e que existam explicações e restrições ao seu uso, como, por exemplo:
- que deve ser mantido longe do alcance das crianças, como qualquer produto perigoso,
- em caso de quebrar, as bolinhas devem ser resgatadas e jogadas fora como uma bateria de celular, em local apropriado,
- que o mercúrio metálico é tóxico quando ingerido,
- que nenhum termômetro é um brinquedo.

Minha recomendação? Sem correria, mas...os termômetros de mercúrio são baratinhos, custam até R$ 10... Compre alguns...Mantenha eles sempre longe dos seus filhos e em caso de quebra, tome cuidado.
Tenho certeza que eles são úteis uma hora dessas.
Assim não pode, tá?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Stress infantil - Postado por Jairo Len

O bullying é um assunto que sempre está na cabeça dos pais, sempre preocupados que seus filhos sejam vítima deste tipo de agressão.
E as crianças? O que pensam a respeito?
A pesquisadora Ana Maria Rossi, que faz parte do International Stress Management Association (ISMA), descobriu que o bullying não é a principal causa de stress infantil. Em um estudo com crianças de sete a doze anos (220 crianças do RS e SP) a conclusão é outra: as críticas e desaprovações dos próprios pais citadas por 63% das crianças consultadas – incomodam mais que bullying. O excesso de tarefas e de rotina é citado por 56% e o bullying aparece em terceiro lugar, com 41%.

Esse stress leva, como já é sabido, a dores de cabeça, barriga e pouco ânimo para sair de casa. Muitas destas crianças procuram se esquivar da rotina, no que é chamado pelos psicólogos de "benefício secundário". Dores que podem fazer a criança fugir um pouco da rotina, das broncas em casa e hostilidade dos colegas na escola.

Na Clínica eu me deparo com situações cotidianas que sem dúvida levam as crianças ao stress. Crianças que não gostam muito de esportes são "obrigadas" a uma rotina extenuante de clube, natação, tênis, judô, atividades circences, ballet. Fora a escola em período semi-integral, inglês extra, kumon, mandarim (!!), catecismo. Alguns também fazem fonoaudióloga e psicóloga (esta para rebater as pressões todas...). Bebês de seis meses  já fazem natação, iniciação musical e artes plásticas.

É claro que, se a criança gosta de tantas atividades e não está com uma "fadiga crônica infantil", tudo bem. Mas temos que lembrar que as crianças precisam brincar. Atividades livres, tempo livre em casa ou com os amigos, para inventar o que quiser (sem professores e monitores). Muitos pesquisadores afirmam que para as crianças o brincar pode ter o efeito de uma terapia. A ludoterapia é o maior exemplo disso. Não tenho dúvidas que as crianças fazem uma "auto-ludoterapia" diariamente...desde que deixemos elas bricarem.

sábado, 9 de outubro de 2010

KPC - a superbactéria - Postado por Jairo Len

Em primeiro lugar: nada de alarmismo...
Não estamos diante de uma nova gripe suína, ebola ou antraz.
A imprensa (por falta de assunto médico) tem falado bastante a respeito de um surto da superbactéria KPC - esta bactéria que já matou 18 pacientes no Distrito Federal (não se anime, não eram políticos...).
A KPC é a Klebsiella pneumoniae Carbapenemase, uma evolução da bactéria Klebsiella pneumoniae que produz uma enzima que a torna resistente a quase todos os antibióticos. Restam poucas opções para combatê-la, como a Tygeciclin e a Colistin, antibióticos de altíssimo custo e efeitos adversos importantes.
É uma assunto médico de primeira ordem, que já vem sendo tratado nas comissões de infecção hospitalar pelo mundo há alguns anos com extrema seriedade.
Porém, como todas as "superbactérias", a KPC é uma bactéria intrahospitalar e acomete exclusivamente pacientes crônicos internados em UTIs por tempo prolongado, em uso de múltiplos antibióticos de largo espectro.
 
Pessoas saudáveis e que não estão internadas não tem risco de adquirir esta bactéria. Nem médicos ou enfermeiros que lidam com os pacientes em estado grave, nem familiares dos doentes. Não se carrega a bactéria para fora do hospital, porque ela precisa de um ambiente especial para se desenvolver (o paciente internado).
O melhor modo de evitar a contaminação entre um paciente e outro é lavar muito bem as mãos, antes de entrar nas UTIs, antes de encostar no doente, e ao sair do quarto da UTI, ao sair dos quartos hospitalares comuns. Quem passa a bactéria de doente para doente são as pessoas sadias (médicos, enfermeiros e afins, familiares).

A informação da existência da KPC é, como todas as informações, importante para todas as pessoas que querem se manter atualizadas no que se passa ao nosso redor. Mas o alarmismo que tem sido feito não leva a absolutamente nada.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Regiões ricas do país registram mais recém-nascidos de baixo peso - Postado por Jairo Len

É manchete em alguns dos mais importantes jornais do país: "Regiões ricas do país registram mais bebês de baixo peso". Recém nascido de baixo peso é aquele que nasce com menos de 2.500 g, independente do tempo de gravidez. Um prematuro de 32 semanas sempre terá baixo peso (nascem com cerca de 1.700g). Gemelares, em geral, nascem com menos de 2.500 g.
A pesquisa, que avaliou números do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos entre 1995 e 2007, pode gerar um monte de interpretações, como o fato que nas regiões mais ricas é que se fazem mais tratamento de fertilização in vitro (gerando gemelares e trigemelares), que nestas regiões a atenção pré-natal é melhor e por isso detectam-se doenças maternas e fetais que indiquem interrupções na gravidez de forma mais precoce (fetos que morreriam na barriga das mães...), etc.
Mas outro fator foi detectado - e isto eu sempre reitero muito nas consultas pré-natal lá na Clínica: CESÁREAS programadas antes do tempo certo. A pesquisa constatou que as taxas de baixo peso sobem quando o índice de cesáreas passa de 35% - em muitos lugares, ele bate nos 90%.
Basta perguntar para as dez mães ao seu redor e descobrir a porcentagem de cesáreas.
Dos recém nascidos que eu atendo na Clínica Len de Pediatria, cerca de 80% nasceram de parto cesárea, muitos deles de forma eletiva (cesárea marcada). É claro que existem inúmeros motivos para se fazer um parto cirúrgico, marcado inclusive, mas o ideal seria fazer a cesárea (se for obrigatória) assim que a criança mostrar que quer nascer, que já está na hora, que começar o trabalho de parto. Ou após as 39 semanas de gestação.
Há obstetras em São Paulo com índices de 90% de partos normais - com clínicas muito grandes e mães de excelente nível sócio-econômico.
Qual será o segredo?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Surto de catapora? - Postado por Jairo Len

A catapora (ou varicela) é uma doença viral que todos conhecem. Dispensa descrições...
Tenho recebido e-mails sobre um "surto" de catapora que está acontecendo em São Paulo (Capital). Na verdade, não é um surto. A catapora é uma doença endêmica, que todos os anos tem um pico de incidência na primavera. Surto ou epidemia é quando esta incidência passa do habitual. Isso (ainda) não aconteceu aqui na cidade de São Paulo. No interior, já.
De qualquer forma, vamos ao que eu acho importante: catapora tem vacina segura e eficaz que ainda não é feita pelo governo. Quem quiser, paga e aplica nos seus filhos na rede particular. Como a maioria das crianças não é vacinada, a doença está aí.
Quem recebeu a vacina (aplicada com 1 ano de idade e reforço aos 5 anos) pode ter a doença, mas de uma forma bastante atenuada. Em números:
Trinta por cento das crianças vacinadas podem ter esta forma atenuada. Os outros 70% vacinados não terão a catapora.
Para se ter uma ideia, a criança não vacinada tem, se pegar catapora, 400 a 500 lesões pelo corpo todo.
Os vacinados que tiverem contato podem ter a catapora atenuada, com 10 a 30 lesões.
Nos vacinados não há risco de complicações importantes, como a pneumonia e a encefalite.
As crianças não vacinadas que tiverem contato com um doente com catapora podem receber a vacina em 48 horas com grandes  chances de se proteger contra a doença.
A partir dos 5 anos é necessária uma nova dose da vacina, porque os anticorpos começam a diminuir. Mas se uma criança vacinada teve contato com um doente de catapora, vai adquirir imunidade por toda a vida, tendo ou não a forma atenuada da doença.