domingo, 28 de novembro de 2010

Antibióticos: só com receita médica - Postado por Jairo Len

A partir de hoje, a venda de antibióticos (inclui pomadas, gotas otológicas e colírios à base de antibiótico), no Brasil, só será feita com retenção da receita médica.
A medida da ANVISA é prá valer: hoje uma paciente minha não conseguiu comprar um Tobrex (colírio)...
A regulamentação da ANVISA pode soar exagerada, mas é extremamente correta. Em nenhum país civilizado ou meio-civilizado do mundo você compra antibióticos sem receita.
Aliás, nem antibióticos, nem cortisona, nem brocodilatadores.

A auto-medicação com antibióticos não é uma solução, nem mesmo em um país em que o acesso à medicina (boa, má ou péssima) é bem difícil pela população de baixa renda.

É claro que, para os médicos, a compra de um antibiótico sem receita às vezes é seria importante... Um exemplo? A mãe me liga e conta que, após uma noite de dor de ouvido e febre alta, há saída de secreção purulenta por um dos ouvidos de seu filho. Uma "otite média supurativa". Eles estão em Barra do Una, litoral norte de São Paulo. O hospital mais próximo é em São Sebastião (e quem já foi jura que não volta)...
Evidentemente é uma doença que, mesmo sem examinar, sabemos que o uso de antibiótico será fundamental. O que fazer? Só o tempo e as circunstâncias vão nos ensinar.
Nas viagens ao exterior, meus pacientes recebem uma receita de "farmácia básica" que salva muitos passeios. Quem sabe valha a pena ter esta farmacinha nas viagens pelo Brasil?
Nesta receita de farmacia básica, a primeira frase é: não use qualquer um destes medicamentos antes de entrar em contato conosco.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vovó estava certa sobre Vick Vaporub? - Postado por Jairo Len

A Proctor & Gamble financia, o Pediatrics publica e a imprensa de delicia...
Após dezenas de estudos clínicos provando a ineficácia de usar os "vapor rubs" (VRs) para o tratamento de tosses e resfriados, assim como seus efeitos irritativos, um novo estudo foi publicado na importante revista Pediatrics, edição de novembro de 2010.
Em uma avaliação subjetiva de 138 crianças, por uma noite (repetindo: uma noite), um estudo concluiu que as crianças que usaram VRs tiveram melhora nos sintomas de gripe e congestão. O estudo foi realizado em crianças entre 2 e 11 anos e a avaliação foi feita pelos pais ou cuidadores. E mais: para garantir a "isenção" dos pais, cada um deles tinha que passar o vapor rubs em baixo do seu próprio nariz (para não saber se está passando placebo ou Vick no seus filhos).
É para rir?
O estudo comprovou também que o grupo que usou VRs teve mais efeitos irritativos, de pele ou trato respiratório.

A meu ver, um estudo simplório para ser publicado em uma revista tão importante. Basta dar uma lida nos demais artigos para ver o nível de cada um deles.
De qualquer forma, como já escrevi anteriormente no blog (clique aqui para ler), continuo achando que não seja a hora de indicar os vaporubs como tratamento de quaisquer doenças respiratórias nas crianças.
Vovó usava. Porque parou?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pulseira Quântica - Postado por Jairo Len

Não é vodca nos olhos, não contém testosterona, não tem cafeína, nem é e-drug...
Da série "não faz mal" (ou, só faz mal para o bolso), apresento aqui, para os que ainda não conhecem, a "milagrosa" pulseira quântica.
Ontem a minha filha, na banca de jornal, pediu para que eu comprasse uma "pulseira quântica". Ela jura que melhorou muito o equilíbrio de uma amiguinha dela, que consegue ficar em pé, na muretinha, por "bem mais tempo que as outras". Evidentemente não comprei, ainda que custasse R$ 3,50 - e não os R$ 200,00 que você paga na original. Uma criança de sete anos acreditar nesta história, vá lá...
Mas já vi (e você também já viu), no pulso de muita gente graúda, estas pulseirinhas dotadas de um holograma, que promete equilibrar as energias e as células das pessoas. Simples assim. E gente com mestrado e doutorado, formação acadêmica, conhecimentos gerais fenomenais...
A ANVISA já proibiu a propaganda enganosa da pulseira quântica. Não pode proibir a venda da pulseirinha porque não é algo nocivo à saúde, não é medicamento.
Evidentemente não há qualquer comprovação científica que funcione, nem em teoria.
O grande negócio para "pegar" tantas pessoas é o marketing agressivo, fazendo artistas e esportistas usarem e jurarem que, para eles, funcionou (pelo menos acho que houve equilíbrio nas contas bancárias deste pessoal).
Conforme o professor em Teoria Quântica de Campos e coordenador do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará, Carlos Alberto Santos de Almeida, não existe nenhuma pesquisa que comprove que os efeitos quânticos possam ajudar na saúde humana. Ele explica que, na maioria das vezes, os efeitos quânticos agem no organismo destruindo as células, como é o caso da radioterapia. Segundo o físico, o tratamento mata as células cancerígenas e também as saudáveis. "Já estou acostumado com essas fraudes. Todas esses aparelhos que prometem milagres, principalmente com a física quântica, são, de fato, suspeitos", frisa o doutor

Seria uma reedição da cafonérrima pulseira Sabona? Quem se lembra dela??
Na verdade, mal não faz... Realmente não acredito nos benefícios destas pulseiras, mas tenho certeza absoluta que não há malefícios físicos no seu uso...
Cada um gasta seu suado dinheiro como bem quiser, mas como disse Bertold Brecht: "o que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso".

Relembrando os anos 80... Esta é a primeira pulseira que prometia te equilibrar...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Energéticos e Alcoolismo - Postado por Jairo Len

A ideia de escrever neste blog alguns textos mostrando os malefícios de determinadas substâncias ou hábitos é para que, além de você se informar sobre estes tópicos de saúde, tenha "munição" para as conversas com filhos, irmãos, enteados...na tentativa de orientá-los, também. Sabemos que em determinada faixa etária (doze aos vinte e tantos) a internet só se conecta no MSN, Facebook, Orkut e outras redes sociais.

Um estudo da Universidade de Maryland, que será publicado na edição de fevereiro da revista Alcoholism: Clinical and Experimental Research, avaliou dados de mais de mil estudantes universitários, dos quais 10,1% disseram ingerir energéticos pelo menos uma vez por semana. Energéticos são bebidas em lata com altos teores de cafeína e carnitina. A pesquisa não é inédita, e a UNIFESP, em 2004, já comprovava o mesmo:
Os universitários com elevado consumo de energéticos (52 vezes ou mais por ano) apresentavam risco significativamente maior de desenvolver dependência de bebidas alcoólicas e se embebedavam mais e mais cedo (com relação à idade) que os demais.
Misturar bebidas alcoólicas com energéticos permite que a pessoa beba mais, porque os estimulantes combatem os efeitos sedativos e tranquilizantes do álcool. É a chamada "embriaguez desperta". Mais álcool na circulação e por mais tempo, maior risco de lesões no fígado e evolução para alcoolismo.
Entidades norte-americanas já solicitam que os energéticos tenham a venda controlada e que seja proibido (ao menos oficialmente) misturá-los à bebida alcoólica.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A quem cabe a decisão? - Postado por Jairo Len

Uma notícia que li hoje no Estadão me lembrou dos tempos de Escola Paulista de Medicina/Hospital São Paulo.
"Pais de jovem que morreu sem transfusão podem ir a júri".
Trata-se de menina de 13 anos, cujos pais (especificamente, a mãe) seguem a seita Testemunhas de Jeová. A menina sofria de anemia falciforme, uma doença absolutamente compatível com uma vida normal, desde que sejam realizadas, se necessário, transfusões de sangue. Durante uma das internações, seria necessário transfundí-la. Os pais e o médico particular da família não permitiram a realização da transfusão e a menina morreu. O processo se arrasta há mais de uma década.
"Aspectos médicos, religiosos e sociais estão por trás da decisão jurídica que será dada ao caso pela 9.ª Câmara Criminal do TJ no dia 18. Além do militar da reserva Hélio Vitório dos Santos, de 68 anos, e da dona de casa Ildemir Bonfim de Souza, de 57, pais da menina, é réu nesse processo de homicídio doloso o médico e amigo da família José Augusto Faleiros Diniz, de 67, membro do grupo de testemunhas de Jeová da família. Dos médicos que trataram da menina no hospital, nenhum foi acusado."

Nos tempos de residência no Hospital São Paulo, me deparei com uma situação muito parecida. Um pai testemunha de Jeová - munido de procurações e documentos assinados em cartório - dizia que processaria médicos e hospital caso fosse infundido qualquer hemoderivado em sua filha. Nem sangue, nem plaquetas, nem albumina.
A única diferença é que a menina, de 8 anos, era portadora de uma doença metabólica muito grave, sem chances de sobreviver. O uso dos hemoderivados prolongaria um pouco (dias?) a sofrida vida da menina. O pai não desgrudou dos médicos e até autorização judicial para ficar dentro da UTI ele possuia. Exclusivamente para controlar o que seria feito, o que seria infundido e transfundido. Nem preciso contar o fim, rápido, da história.

O que você acha?
Os pais tem direito de decidir qual deve ser o destino (morrer ou viver) de uma menina de 8 ou de 13 anos?  Eles merecem ir para a cadeia ou a sentença já foi dada?
A meu ver, como médico, exceto em casos de prolongar ou não a vida de um doente terminal, os familiares de uma criança hospitalizada não tem direito de recusar nenhum procedimento fundamental à vida por questões religiosas ou filosóficas. Criem-se hospitais exclusivos para estes pacientes.
Antes que digam que sou arbitrário, lembro que só ouvi casos assim nos testemunhas de Jeová. Nenhuma outra seita ou religião é contra quaisquer procedimentos fundamentais para manter uma criança viva.
Assim que chegar à maioridade, este adulto pode deliberar o que quer ou não para sua vida.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E-drugs e Eyeballing - Postado por Jairo Len

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que diz respeito ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta".
Com esta frase de Albert Einstein, eu inicio a postagem de hoje, explicando, aos que ainda não conhecem, duas formas novas que demonstram a infinitude da estupidez humana.
E-drugs - as drogas sonoras digitais existem à venda na internet, e ainda não foram proibidas em nenhum país. As e-drugs nada mais são do que sons diferentes emitidos em cada ouvido ao mesmo tempo, que provocam reações no cérebro capazes de deixar o usuário eufórico ou relaxado, de acordo com sua preferência. Consome-se com headphones.
"Estamos cada vez mais próximos de uma geração em que alguns indivíduos entrarão na dependência eletrônica", explica o neuroradiologista e coordenador do Instituto do Cérebro do Einstein, Dr. Edson Amaro Jr. As e-drugs não tem nada a ver com o "vício" em computador e internet que muitos tem. 
As e-drugs são ondas sonoras simples e com diferentes graus de sofisticação. Na hora da utilização, geralmente são moduladas por algum outro estímulo - como a frequência respiratória ou cardíaca do usuário - e variam na cadência de algum parâmetro do processamento mental do indivíduo.
As drogas sonoras digitais funcionam como uma hipnose acústica, que pode levar alguns à sensação de prazer ou ser considerada bastante chata por outros - o mesmo que acontece com algumas drogas, como a maconha.
"Certamente qualquer estímulo repetitivo aplicado com rotina poderá ser, em grau maior ou menor, uma fonte de dependência", afirma o neuroradiologista.
"As e-drugs são uma descoberta cujos efeitos ainda permanecem sem o conhecimento científico e que começam a ser utilizadas em larga escala. E merecem atenção porque, como qualquer outra novidade na internet, têm velocidade de expansão assustadoramente rápida",  conclui.
Fonte das citações: Folha.com

Eyeballing - Chega a parecer piada. Este nome é o que se dá à brincadeira estúpida de se consumir vodka através dos olhos. Pingá-la nos olhos como um colírio. A vodka "ocular" (com 40% de álcool) será absorvida, como se fosse bebida. O álcool pode causar queimaduras na córnea e na mucosa. Danos, muitas vezes, irreversíveis. Há casos de cegueira descritos após o eyeballing, na Europa e nos Estados Unidos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sobre roupas e etiqueta - Postado por Jairo Len

Lendo hoje mais um artigo da psicóloga Rosely Sayão, lembrei de uma questão que frequentemente faz parte das consultas pediátricas: roupas, uniformes e etiqueta, em geral. O assunto é controverso, mas o que segue é a minha opinião...
Sempre fui a favor de uniforme escolar (não exatamente o 100% branco, da escola em que estudei até o "ginásio"). Acho que o uniforme equipara todos e evita exageros para mais ou para menos. E, se a escola não faz questão que seus alunos usem uniforme, que pelo menos tenha um "dress code".
As crianças e adolescentes tem que aprender desde cedo (pela educação dos pais e da escola) que existem regras em tudo o que fazemos. Para quem não gosta disso, existem lugares do mundo sem estas regras.
"Na nossa sociedade, cabe ensinar os filhos como devem se portar e, inclusive, a roupa que devem vestir. Adequada para cada situação. precisamos também considerar que a vida pública e os relacionamentos sociais precisam ser mediados por algumas normas e essas sempre estão referenciadas a alguns princípios e valores". Palavras de Rosely Sayão.
Na escola (e, bem lá na frente, no trabalho), não devemos usar roupas de praia. Nas festas mais formais, existe o chamado traje "social" ou "passeio completo". Outro dia estive em uma festa de debutante (que dizia bem claro no convite: "traje social") e fiquei horrorizado com a roupa de muitos meninos: calça jeans rasgada, camisa polo rugbi e tênis. Aonde estão os pais??
Muitos podem perguntar: "que importância isso tem...?".  Eu acho que é uma questão de respeito e educação. Uma super-festa, cuidada nos mínimos detalhes, fica com cara de shopping-center-sábado-à-tarde. Provavelmente estes meninos não vão aprender a se vestir e se portar adequadamente tão cedo. Outros bons modos também passam longe. Respeito aos mais velhos, pedir "licença" ao passar, dar a vez a alguém, civilidade... São negligenciados na educação dada pelos pais desde cedo.
No artigo, Rosely conta que, conversando com uma executiva, esta se queixa que não sabe como abordar seus funcionários, formados, a respeito da roupa adequada que devem usar. Mulheres de mini blusa, homens de tênis...

No dia-a-dia da Clínica, mães que dizem que seus filhos (de três anos de idade...) já teimam em colocar determinadas roupas e combinações e não aceitam outras. Como proceder? Em casa já tive este problema e recomendo: converse, explique, mostre fotos, ache uma maneira de convencer. Se precisar, use sua autoridade de pai e mãe. Seja firme (firme é diferente de duro). Quando já estiver na rua, na festa, no shopping, elogie o modo como seu filho está vestido. Mostre as outras pessoas, bem ou mal vestidas, comente o mundo ao seu redor, faça seu filho ter esta visão.

Finalizo com mais um trecho do artigo: "num momento em que vivemos uma crise de civilidade, a cortesia, a gentileza, o respeito e a polidez no trato com o outro parecem ser bons remédios para acalmar a generalizada grosseria e a agressividade reinante nos relacionamentos interpessoais."
Concordo em gênero, número e grau.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Fuso horário e jet-lag em crianças - Postado por Jairo Len

Com o dólar barato e as férias chegando, as viagens internacionais estão em alta. As crianças tendem a sofrer bem mais com a mudança de fuso horário do que os adultos. Isso porque, para nós adultos, é mais simples se manter acordado (fazendo compras, por exemplo...) e se adaptar ao "novo" horário de um dia para o outro. Mesmo ao voltar de viagem, podemos nos forçar a dormir ou ficar acordados. Crianças, dificilmente. Há algumas dicas para minimizar o problema.
De uma forma geral, independente de ir para 5-6 horas de fuso, em dois dias tudo estará normalizado.
A própria bagunça que é uma viagem de avião de 10-12 horas já ajuda. O voo sai tarde, o sono é cortado, dorme-se pouco. Se vai para a Europa: quando no "nosso horário" ainda são18h00, lá ja são 22 ou 23h00, hora de dormir... Mas o cansaço da viagem faz as crianças capotarem e terem uma boa noite de sono, mesmo que no nosso horário fisiológico ainda sejam 18h00. Mas acorde bem cedo no dia seguinte para o café-da-manhã.
O ideal, portanto, é sempre tentar seguir, desde o primeiro, dia, os horários do local de destino. Não tente ir "tirando" o jet lag aos poucos. Uma ou duas horas de fuso habitualmente não incomodam nada. O cansaço da viagem compensa no primeiro dia. A fome pode vir um pouco antes ou depois, mas almoce e jante no horário local - isso é muito importante.
No voo noturno, não acho que vale a pena esperar o jantar. Dê comida antes e tente fazer as crianças dormirem mais cedo.
A claridade e o sol são antídotos para o sono (evitam a produção de melatonina). Portanto, no primeiro dia de viagem, não vá ao museu e evite ir ao shopping no fim da tarde. Tente se manter ao ar livre. Se for o caso, banho de piscina na hora que o sono bater forte. Claro, dependendo do fuso (leste ou oeste). Tudo para seguir os horários locais. "Em Roma, como os romanos".

Também é importante oferecer bastante líquido para as crianças - mais do que o habitual - nas viagens prolongadas. Com as novas regras chatíssimas de segurança, recomendo que não se esqueça de comprar garrafinhas de água antes de entrar no avião (na sala/portão de embarque). Dependendo a classe em que se viaje, vão te dar, se muito, uma mini-garrafa de 90 ml.
Se possível (quase impossível), evite dar junk food, tipo porcaritos...
Ajustar o relógio para o novo fuso horário assim que entramos no avião é o primeiro passo para tentar se adaptar e forçar a situação.

O uso de remédios para induzir o sono e tranquilizar as crianças durante o voo também pode ser feito, sob orientação pediátrica. Raramente podem acontecer os efeitos contrários do remédio, portanto é bom fazer um teste antes...
No mais, apesar da viagem ao destino sempre parecer uma via crucis, tenho certeza que vale a pena se aventurar.
Dormir assim também ajuda...